Ticking
Acho, talvez erroneamente, que eu deveria pelo menos falar dessa minha súbita explosão - fechar o blog.
Tenho me sentido transparente. As pessoas na rua que conhecem meu blog simplesmente olham através de mim e eu não tenho reação, como se eu não tivesse o direito de reagir. Meu passado todo e minha intimidade toda estão aqui - e eu sou terrivelmente frágil quanto a isso. Quem me conhece um pouco mais que pelas letras aqui sabe que eu não falo de mim, em absoluto - na verdade, qualquer um que me veja ao acaso terá a certeza mórbida de que eu sou um fútil e estúpido, que ri das coisas mais tolas - mas por que não deveria, já que as coisas mais tolas me são as mais confidentes?
Explodi, um pouco, ontem, quando Bruno adentrou naquele quarto escuro, iluminado pelas telas de európio e enevoado pela fumaça do cigarro de um menino que estava ali na Lan House jogando qualquer coisa. E eu não estava ali. Olhou-me como se atravessam lâminas de vidro diretamente para o computador; eu era uma sombra. E pela primeira vez na minha vida senti como se todos os meus esforços para proteger alguém, para educar, para elevar, para conduzir alguém para alguma coisa que não fosse exatamente o tormento que a pessoa vive, tivessem descido vagarosamente pelo ralo e depois jogados em minha cara com o adesivo: "Tolo!". A tarde se desfez em idéias absurdamente infantis, em conversas regadas à ódio e a um menino me atormentando, um menino não - um homem de 25 anos com a cabeça de um alho-poró me passando cantadas dignas de boca de ralo. Haja. Criei um ódio profundo pelo nada - um ódio daqueles que arde as ventas, que salta as veias e que te dá aquela vontade imensa de dizer "olha, estou muito bem agora, mas tenho que ir embora para a minha casa rever o que as pessoas querem mesmo." Porque não entendo. É um tipo de pedra, sapo, nevoeiro que eu tenho de engolir - e bem infantil também. Não entendo o que eu não fiz. [parênteses - tudo no mundo que dá errado é culpa minha; se eu não pude consertar, então o mundo está no fim. haja sangue para tudo..] Não entendo o que eu não consegui fazer para arrancar Bruno daquele estado cataléptico-enegrecido que se tornou o coração dele - por uma besta, devo acrescentar. O Bailarino 2.0 é ....
Não quero falar disso. Não quero. Me recuso terminatemente a falar de alguém que não me conhece. Que são esses muros de cortiça que as pessoas ficam erguendo? Sinto saudades dos tempos que eu não controlava.
Controlar. Na verdade, é isso que me assusta - perdi o controle. Quando Maria contou o endereço do meu blog aos amigos, tudo bem, eu entendi que eles guardariam o segredo como guardam o próprio - ou esqueceriam tudo logo. Perdi o controle, na verdade, quando meu padrasto viu o blog.
Ele falando na porta de casa "Eu vi seu blog" gelou-me tão profundamente a espinha que eu devo ter transparecido a minha mais interna veia azul. Como? Como? O que ele sabe? Não que isso me trema exatamente pela minha mãe, mas sou completamente frágil nesse aspecto - uma palavra de reprovação dela desmorona muito que eu construo, como quando eu disse que estava namorando e ela acrescentou "Eu não gosto de saber que você está namorando essas bichas de Poços.". Na verdade, essa frase me martelou muito e foi ela que me impediu de bater no Bruno quando ele começou com as histórias de sombras dele. Minha mãe falando ao fundo, ele continuando o discurso dele, eu parado, travado por mim mesmo e acordando silenciosamente no outro dia e o travesseiro ao lado completamente vazio. Teria adiantado algo se eu tivesse pegado ele pelo braço e sacudido, dito "Cara, acorda, eu gosto de você e vamos viver o presente!"? Não sei. As oportunidades me atravessam como janelas expostas.
Nota: Bruno também foi um pedaço do que me estourou para parar de blogar, mas também a maneira como Diogo entrou aqui e usou esse lugar, tão santo para mim!, como um tipo de caderno de recados estranhos, como maneira vil de me julgar. "Quem é Gustavo?" com ar de "Nossa, você é uma puta, uma aberração da natureza que transa com homens. Que nojo!". Isso para mim foi pior que o pior dos julgamentos na rua, daqueles moleques que bebem demais e te chama de "leãozinho" pelo cabelo ou, na infância, de derivados femininos tão, tão marcantes, tão agudos..
Padrastos. Bruno. Julgamentos. Não pertencer ao mundo que escrevo. Não pertenço - explico. Ao sair na rua com meu amigo e o Sucata (o que me cantou tão baratamente) eu notei que eu adorava o cheiro da chuva. Adorava o jeito que as folhas ficam quando chove e eu posso tocá-las e sentir a água passando para o meu dedo e acrescento "ou eu sou muito bicha ou eu gosto muito de coisas frágeis" e rir sozinho, enquanto os dois lá conversam sobre pessoas que ficaram ou se quem-é-quem é gay. Sabe quando você se sente exatamente deslocado? Senti. Eu era a sombra dos meus pensamentos e eles dois, rindo, felizes até, com tantas coisas leves e passageiras!
Chocar-me tão duramente com a realidade foi outro impulso meu para me jogar fora desse círculo, como se me afastando de todos vocês eu estivesse punindo todos os que me lêem mas não entendem, que lêem meus apelos sinceros mas me tratam como vidro, que lêem essas linhas e me julgam sujo. Como se minha distância fosse o frio corte de minha navalha no rosto vingativo daqueles que se jogam pelos cantos molhados das praças, pelos cantos úmidos dos banheiros, pelos cantos silenciosos das igrejas e pedem perdão pelo nada.
Só que descubro, talvez um pouco tarde, que eu estou me distanciando é de mim mesmo, distanciando do meu peito. E sofro mais porque escrevo agora depois de me despedir, sofro mais como sofrem aqueles que sentem o peito parando devagarinho, devagarinho...
sei que não falo tudo que sinto, porque imagino que saber o que se sente não requer necessariamente comunicação verbal. Para que servem os olhos, então? As mãos, os lábios? Não para ficar numa eterna metalinguística..
metalinguagem é minha intimidade destruída,
é minha vontade imensa de escrever o tempo todo tudo que eu sinto
mas ser subjugado por aqueles que usam o corpo e laçam os corpos maculados dos amantes
eu fui subjugado pela minha tolice de sofrer pelas situações que eu crio, que eu recrio, que eu revivo
para não deixar que morram sozinhas.
Me fiz confuso. Me fiz longo demais.
Ao mesmo tempo, esperançoso de ter me livrado dos meus medos ao citá-los [como se afastasse Rumpelstiltskin adivinhando seu nome]
ponho-me a dormir para digerir minhas decisões
vergonhosamente, pois falei demais, senti demais,
entreguei-me tolamente
demais.